Intervenção Eduardo Sá, Psicólogo Clínico, no Contra Corrente da Rádio Observador

Programa Contra-Corrente da Rádio Observador de dia 16/04/2024 – Intervenção de Eduardo Sá a partir dos 01:05:00 min.

As crianças podem mudar se sexo? O que diz a ciência.

Há de facto uma pressão, ou de coação, dos profissionais de saúde no que diz respeito a estas matérias, da transsexualidade e da mudança de sexo entre jovens?

Eu acho que há de facto uma pressão muito grande sobre todos estes temas (transsexualidade e crianças mudarem de sexo) e não é só em relação aos técnicos de saúde, mas em relação às pessoas em geral porque no final de contas eu tenho impressão que se criou uma atmosfera, que nem sequer é uma atmosfera séria, mas é como se de repente tivéssemos reabilitado o delito de opinião. E como se, no fundo, tudo o que fosse contraditório em relação a um determinado perímetro de pontos de vista, pudesse ser vivido de uma forma ameaçadora, quando de facto é só um contraditório útil, por maioria de razão quando as pessoas estão no domínio da saúde, porque eu tenho muito medo que se confunda intervenções que tenham de ser ponderadas e equilibradas, mesmo que vão em contramão em relação a determinados pontos de vista, com perspectivas militantes, porque nessas circunstâncias, então quando se trata de saúde mental, isso transforma-se numa areia movediça que prejudica todos, e prejudica sobretudo os principais interessados, que neste caso são as crianças.

E parece-lhe que este debate que está a começar ou que já se instalou no Reino Unido e nos EUA, deve entrar em Portugal? também era útil por cá começarmos a discutir melhor como estão a ser decididas as mudanças de sexo?

Claro, evidentemente. 

E sem nenhum preconceito, e é bom que isso fique claro. Eu trabalho com aquilo que as pessoas têm de mais bonito, para lhe dizer a verdade, porque no fundo quando elas abrem a sua vida mental, por dentro são todas muito muito bonitas. Mas é muito importante tomar em consideração que no final de contas, isto de assumirmos uma determinada identidade não é uma coisa fácil, muito menos uma coisa que se faça sem muito juízo e muito menos que se faça à boleia de uma tendência supostamente moderna. Por maioria de razão, quando se trata de uma coisa tão mais irreversível como uma mudança de sexo. É muito bom que nós possamos ter a noção que, por mais que aquele discurso sobre a família tradicional pudesse ser tremendamente escorregadio, há ali uma nuance que eu acho que é importante. Para voltar de novo a esta questão que é, de facto, eu não acho que nós possamos todos ficar a assobiar para o ar perante questões que não é a Escola que traz, elas chegam à Escola porque são trazidas por redes sociais, particularmente por uma que está mais em voga junto dos adolescentes, e portanto não é normal que nós tenhamos miúdos de 8, 9, 10 anos a discutir à cabeça se são homossexuais, bisexuais, transexuais, seja lá o que for. Isto não é razoável. E, portanto, a Escola tem de ter uma opinião sobre tudo isto, os professores ficam com a criança nos braços, porque muitas vezes não têm instrumentos para dar o contraponto que é indispensável em tudo isto. Mas calma, isto é chegado às crianças via redes sociais que lhes são disponibilizadas pelos pais muitíssimos anos antes do que deveriam ser, e portanto traz ruído, ruído, ruído à cabeça deles e faz mal à saúde mental dos adolescentes. Por maioria de razão, esta questão da Transsexualidade, porque de repente parece que é uma coisa tão banal que até é politicamente, ou socialmente incorrecto nós chamarmos a atenção para questões óbvias. Vamos lá começar pelo príncipio, esta questão da identidade sexual começa com uma coisa tão simples quanto o facto de sermos um homem ou uma mulher à nascença, e o sermos machos ou fêmeas não é uma discriminação sexual que a natureza nos apresentou, não é, faz parte da vida, introduz diferenças, sendo certo que depois ao longo do nosso crescimento temos tantas solicitações de homens e mulheres tão representativas, que no final de contas nós à boleia disso, vamos construir a nossa identidade, onde cai também aquilo que nós queremos fazer das nossas escolhas sexuais, da nossa vida sexual, e da nossa identidade sexual. E, portanto, partimos do pressuposto que as crianças pequeninas já têm toda uma tendência em termos de identidade de género que faz com que de repente nós comecemos a trabalhar para essa mudança de identidade, ainda antes delas entrarem na puberdade, é uma coisa tão bizarra que obviamente faz com que, muitas vezes estes pais, na ânsia de serem bons pais, ninguém questiona isso, querem dar o melhor aos filhos, mas muitas vezes alguém tem que chamar à atenção de uma forma prudente e serena de que estão a expor os seus filhos a perigos que podem comprometer de forma muito muito grave toda a sua saúde mental. Portanto, a mim não me parece razoável que se crie uma onda de modernidade. Muitos de nós, técnicos de saúde mental, apercebemo-nos que isso empurra muitas crianças e adolescentes, que estão ali na ponte entre a infância e a adolescência, e são (apenas) crianças. Nós apercebemo-nos que isso se faz, muitas vezes, de uma maneira rigorosamente precipitada e era gravíssimo que nós não tivéssemos a liberdade e verticalidade de dizer: “cuidado, não pode ser assim”. Não quer dizer que sejamos rigorosamente transfóbicos, mas que coisa mais tola, não tem sentido. Não tem rigorosamente sentido nenhum. Agora, o que nós não podemos é entrar numa onda perfeitamente populista e demagógica, quase como se no fundo houvesse um pensamento prescrito e um pensamento proscrito, e nós tivéssemos todos medo de usar a nossa liberdade e os nossos compromissos com a saúde das pessoas, no sentido de dizer “cuidado, que as decisões precipitadas acabam sempre por encaminhar para custos tão mais elevados”, e que depois eu gostava de saber onde é que estas pessoas, que muitas vezes se precipitam nestes registos, estão quando (se deparam) com os efeitos terríveis depois destas mudanças precipitadas, que ficam depois simplesmente com quem as faz. 

Essa ponderação é feita no diagnóstico dos casos?

Formalmente é feita. Mas muitas vezes talvez não seja feita com tanta ponderação quanto deve ser. Porque repare, eu tenho muito medo que, em muitas circunstâncias, haja equipas que de alguma forma acabem por elas próprias também já estarem com algumas limitações em relação aos seus pontos de vista de princípio sobre estas coisas. E portanto, uma mudança destas não é uma coisa tão natural como a sede, implica mudanças brutais e significativas em variadíssimos níveis. Dou-lhe dois ou três exemplos, e começo pelos exemplos mais banais. O exemplo mais banal de todos passa-se quando, às vezes, algumas mães me dizem assim: “o meu filho não gosta de jogar à bola no recreio, e o filho tem 6 anos, por hipótese.

E gosta de brincar com bonecas…

Mas eu acho óptimo que goste de brincar com bonecas, eu acho que todos os rapazes saudáveis deviam gostar de brincar com bonecas,l e não vejo mal nenhum que as raparigas brinquem com carrinhos ou à bola, que fique claro. 

Agora, o que eu gostava que ficasse claro, é que muitas vezes estes miúdos dizem “eu dou-me sobretudo com as meninas”. E porque é que muitas vezes eles se dão com as meninas? Bom, porque (talvez) são um bocado desengonçados a jogar à bola, não são propriamente o número 10 que marca golos a torto e a direito, não são escolhidos nem para jogar à baliza, aquilo de facto inibe-os e eles, sentindo que de facto não mandam no grupo dos rapazes vão ali para o grupo das raparigas, onde têm algum impacto e onde se sentem mais acolhidos. Às vezes uma coisa começa assim, o que faz com que muitos pais acendam os sensores e digam “ups, de repente ele está a começar a ter mais tendência para as meninas”. Que fique claro que muitas vezes essa maior tendência, num primeiro momento, é só uma forma deles se defenderem como quem diz “calma, entre eu ficar o tempo todo a olhar para o ar, já que os rapazes passam a vida a jogar à bola, o que é que eu vou fazer? Vou fazer pela vida e vou andar aqui a brincar com as meninas”. O que não tem mal nenhum, mas daí a fazer extrapolações já é muito escorregadio. E eu às vezes a brincar costumo dizer assim: “cuidado, mas ele não gosta de jogar à bola porque não gosta de jogar à bola (porque nem todos os rapazes têm de gostar de jogar à bola) ou não gosta de jogar à bola porque é um bocado desengonçado?”. É que são coisas diferentes. E às vezes os mal entendidos são um bocado como os slogans na Política, colam-se às crianças e depois de se repetirem muitas vezes, parece que são factos políticos. Quando uma adolescente que tem 11, 12, 13 anos, olha para o espelho e percebe que não é assim tão pequenita, porque de repente as glândulas começam ali a disparar em todas as direcções, o cabelo fica tremendamente oleoso, a pele cheia de borbulhas, o nariz…etc. É muito difícil, fica muito difícil, ficam feios os miúdos, coitadinhos, E de repente têm nas redes sociais variadíssimas coisas como, coisas trágicas como meninas na puberdade a usar cremes anti-envelhecimento, em que mundo é que nós estamos, meu Deus. Com os pais distraídos, como pode ser… Temos montes, montes, montes de informação, em que as adolescentes vão pondo um post, e outro e outro, em que têm uma cintura fantástica e Photoshop e mais Photoshop… E depois têm outro tipo de artigos em que se fala de identidade sexual, em mudança de sexo, etc e de repente, evidentemente que uma adolescente no meio de tudo isto faz muitas perguntas a si própria e aos seus amigos, e anda num dilema tremendo, porque de repente não se reconhece no corpo que tem, faz coisas como (não percebo como é que os pais podem estar tão distraídos) começar a usar aqueles soutiens de desporto em que se aperta, aperta para tentarem diluir tudo o que são caractéres sexuais secundários e, de repente, isto vai-se assumindo e, há sempre um grupo nas escolas onde se sente mais acolhida, que são aqueles miúdos que, no fundo, têm problemas mais ou menos identicos e começa-se a falar de mudança de sexo. Às vezes as coisas começam assim… E não são tão lineares, não são tão preto e branco quanto possa parecer.

Quando de repente temos técnicos a entrarem nesta onda, eu tenho obrigação de perguntar: “Mas calma, estão a ser tão ponderados quanto deviam, ou…? Bom, esta industria das cirurgias da mudança de sexo tem ali nichos de mercado que às vezes deviam ser tratados com outro tipo de cautela. E, portanto, eu acho que nós temos de ser ponderados e não se trata de ser contra coisa nenhuma, trata-se de sermos só sensatos. E não entrarmos numa onda que de repente, faz com que estas crianças sejam lidas de uma maneira precipitada e possam ser completamente cilindradas por uma realidade que elas obviamente não controlam, os pais a quererem ser pais de cabeça aberta e, mesmo que eles não percebam o que se está a passar estão a ser coniventes com coisas com que não deviam, os técnicos às vezes a nem sequer conversarem com os pais que é mais grave porque acham que têm de fazer pontes com os filhos – e sejamos razoáveis…quer dizer, são menores! Mas desde quando é que um cuidado de saúde passa à margem do conhecimento ou da autorização dos pais? Não pode, são menores…Mas em que mundo é que andamos? Andamos numa onda tal em que eu percebo que a determinada altura seja preciso nós dizermos “não, vamos lá parar isto” E o Estado, na sua sabedoria, tem de criar mecanismos para dizer para irmos com calma, que estas coisas têm de ser ponderadas em nome de um bem comum, que neste caso é a saúde das crianças. 

Como é que acha que está a nossa lei, nesse sentido? Protege os pais? Dá segurança às decisões destes jovens?

Eu tenho medo que muitas vezes não dê (segurança), porque nós estamos de facto a falar de cuidados de saúde. Eu percebo lindamente que os adolescentes são de um mundo que põe muitas questões, mas que objectivamente são crianças. E, portanto, eu fico sempre muito preocupado em questões tão simples quanto: obviamente que é suposto que os pais quanto têm uma filha adolescente, evidentemente, tenham a delicadeza de a proteger em relação a alguns dados de saúde, mas evidentemente que eu também não acho que se possa fazer, começando pelo básico, contracepção de crianças sem o conhecimento dos pais, como é óbvio. Sendo que os pais, obviamente, são as primeiras pessoas a querer proteger os filhos e, portanto, serão sobretudo sensatos. Portanto, eu acho que os pais são personagens muito importantes neste contexto mas muitas vezes, tenho medo, que eles próprios tenham uma formação muito vinda das redes sociais, sem um contraditório equilibrado disto tudo e eu tenho medo que, de facto, se entre numa onda de cabeças abertas, que muitas vezes estão envolvidas por um obscurantismo muito mais assustador do que pode parecer e que no limite prejudica os pais, prejudica as famílias, prejudica o dia depois de amanhã destas crianças e, portanto, a lei tem de tomar em consideração que há dimensões éticas que não se pode fugir, por mais que aparentemente pareçam forças de bloqueio quando de facto não o são.”

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